
Gabriela Barretto quase gostava mais de ler do que de cozinhar, mas aos poucos os livros de cozinha foram roubando espaço nas prateleiras e depois de se formar em Letras, a Gastronomia finalmente venceu a batalha e lá foi ela pra França, Brillat-Savarin e Garcia Lorca dividindo na mala lugar com os aventais.
Em Paris ela aprendeu a confeitar pétalas de açúcar e de chocolate e jurou solenemente que jamais voltaria a fazê-lo! Aprendeu também a matar barbaramente uma lagosta e a cozinhar coisas complicadas com muitos molhos e manteigas. Comeu queijo até desfalecer e aprendeu a amar as visitas aos mercados de rua, coloridos e perfumados. Por causa de uma roomate italiana ficou viciada em cappucinos e visitou a Toscana de onde voltou com uma mala de contrabando alimentício e uma intensa paixão pelos sabores simples e honestos.
De volta ao Brasil foi trabalhar com a Paola Carosella, no extinto Julia Cocina, onde esqueceu tudo o que havia aprendido e DESCOBRIU O UNIVERSO. Dessa época herdou não somente o respeito por todas as coisas frescas e singelas, uma nova e libertadora visão da cozinha, mas também uma preciosíssima amizade.
Foi pra Espanha, morou na Argentina e um dia sonhou que tinha um restaurante que era uma casa, uma linda casa com velas sempre acesas, flores sempre frescas, Billie Holliday cantando Blue Moon nos falantes, um jardim secreto e perfumado onde as pessoas se sentariam para beliscar pequenos pratos deliciosos: umas azeitonas marinadas, um jamon ibérico cortado à mão, algumas ervas frescas da horta, laban feito por ela, pão caseiro, crocante e quente e algum peixe fresco assado no fogo vivo, perfumado com madeira e alecrim. Teria bom vinho e bom café, um bom cognac para esquentar a alma, chocolate denso e escuro para apaziguar o espírito.
E assim foi. Ela voltou pra São Paulo e fez o CHOU, que abre as portas nas noites de terça à sábado. Nos outros dias ela pode ser encontrada na horta do fim do seu jardim, arrancando algum mato, plantando uma muda de tomilho ou talvez lendo um livro da M.F.K.Fisher com uma fumegante xícara de café.
Postado em: 31 janeiro 2011
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